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Dois toques

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Eles não gostam de futebol...


Enfim chegamos à famigerada 3ª fase do Campeonato Brasileiro – Série D. O regulamento da competição é extremamente confuso ao tentar definir os critérios de classificação dos oito times que irão compor a fase quartas de final. Várias interpretações já foram traçadas, sem que a CBF viesse a público, de forma decidida e profusa, para acabar com as constantes dúvidas. Uns acreditam que os três melhores perdedores serão definidos com a pontuação geral do campeonato inteiro. Outros dizem que as campanhas só serão utilizadas em caso de empate nos critérios dentro da 3ª fase. E alguns poucos defendem que as campanhas não serão consideradas, sob nenhuma forma. Resta esperar o pronunciamento dos gênios que compuseram esta obra prima. 


... e nem dos clubes


Não contentes com a confusão criada, os dirigentes da CBF resolveram piorar ainda mais a situação dos clubes: entre o primeiro jogo da 3ª fase e o segundo, haverá um intervalo de duas semanas. Motivo: as eliminatórias sul-americanas. Vocês irão me perguntar o que a seleção tem a ver com a Série D, e eu irei responder que talvez o Dunga queira aproveitar alguns destaques do São Raimundo do Pará. Isso sem falar que o jogo do Brasil será em um sábado, às 21h de Brasília, ou seja, não haverá concorrência com os já pouco prestigiados embates da quarta divisão nacional. No final das contas, mais uma semana sem receita e com mais dívidas. 


“Nem só de pão vive o homem”


Esta frase, imortalizada pela Bíblia e por líderes diversos em momentos de altruísmo, segue sendo o tema dos profissionais do Londrina Esporte Clube. Os jogadores, que tiveram a sua situação amenizada na semana retrasada, ainda estão com um mês de salários atrasados.  Guia do grupo, o abnegado Gilberto Pereira vive condição bem pior: só recebeu 30% do salário de maio. Outros funcionários do clube também estão com os vencimentos atrasados há meses. Por isso tudo, qualquer torcedor do Londrina tem a obrigação de prostrar-se, genuflexo, ante a figura messiânica do Cristo alviceleste, o técnico Gilberto Pereira. Um milagre já foi visto: a melhora, da água para o vinho, do futebol apresentado pelo time. Já antevejo o dia em que Gilberto atravessará o lago Igapó, andando, para receber o seu ordenado.

 

3-7-0?

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Gilberto terá que armar esquema ofensivo
Gilberto terá que armar esquema ofensivo
Hoje vamos conversar um pouco sobre o esquema tático do Londrina. Antes de tudo, é bom deixar claro que o técnico Gilberto Pereira vem utilizando com felicidade as peças que dispõe. É muito difícil trabalhar sem opções adequadas para mudar o time de acordo com cada jogo, o que seria ideal neste instante. Porém, algumas deficiências da equipe são evidentes e preocupantes para o complicado jogo do próximo domingo.

Um dos setores mais crônicos é o ataque. Até agora, passados seis jogos, não há um jogador de referência na equipe. E em alguns momentos da 1ª fase, o prejuízo em decorrência da ausência de um jogador com características de área ficou bastante claro. Voltemos para a 4ª rodada, em Erechim, quando o Londrina caiu diante do Ypiranga, sofrendo dois gols em apenas cinco minutos. Naquele jogo, ainda havia um jogador que cumpria, de alguma forma, a tarefa de ocupar os zagueiros com a sua presença: o atacante Luiz Eduardo. Nenhum técnico no mundo deixa um zagueiro no mano a mano com um centroavante. No mínimo dois zagueiros – um no primeiro combate e outro na sobra – são utilizados. Quando Luiz Eduardo - que segurava dois zagueiros no campo do adversário - foi retirado da partida, não existia mais motivo para que o treinador Amauri Knevitz mantivesse seus dois beques plantados em sua área defensiva. O que ele fez? Colocou em jogo um atacante no lugar de um defensor e liberou o outro para subir ao ataque quando houvesse uma situação favorável. Trocando em miúdos, abriu-se o caminho para a pressão sobre o Londrina e os conseqüentes gols que propiciaram a virada do time gaúcho.

Em Naviraí, na última rodada, aconteceu o mesmo. Após a polêmica expulsão de Rodrigo Félix, que, apesar do seu porte físico diminuto, incomodava a defesa sul-mato-grossense, o que se sucedeu foi uma maior liberação dos jogadores defensivos do Naviraiense, que passaram a incomodar e sobrecarregar o sistema defensivo do LEC. As consequências: um gol na base da pressão – aliás, marca característica de Itamar Bernardes – e vinte minutos de sofrimento para torcedores, comissão técnica e jogadores alvi-celestes. Caso houvesse um homem, repito, marcando território na área adversária, esta pressão seria fatalmente atenuada.

Posta a questão defensiva, tratemos da finalidade máxima de um homem de área: fazer gols. Oficialmente, quem está entrando em campo como centroavante é o meia Fabinho. Porém, na prática, quem faz o papel central do ataque azul e branco é Rodrigo Félix. Mas suas características não permitem que ele seja utilizado desta maneira. Rodrigo é jogador de habilidade, velocidade, que gosta de partir de trás com a bola dominada. No Pará, jogando pelo Paysandu, chegou a fazer um campeonato inteiro jogando como lateral direito. Domingo, nem mesmo o improvisado jogador paraense estará à disposição do técnico Gilberto Pereira. O que fazer? A solução seria contratar, com urgência, um homem de área. Mas como colocá-lo em campo com, no máximo, dois treinamentos? É realmente complicada a situação de Pereira. Dentro das alternativas do elenco, as alterações que menos mudariam as características do time seriam a entrada do recém contratado Danielzinho e a utilização do meia Fabinho como 1º atacante. Todavia, o Londrina jogaria muito pelo meio, já que é costume destes dois jogadores o retorno ao meio-campo. Poderemos definir, então, que o Tubarão irá a campo com um 3-7-0? Infelizmente, creio que sim. Sem um homem de referência, as jogadas pelas pontas – ora com os laterais, ora com os meias – serão prejudicadas e poderão até mesmo nem acontecerem. O São José – que não é esse timaço que muitos pintam – virá fechado, jogando recuado e esperando pelas oportunidades de contra-ataque. Se o Londrina não tiver, dentre o rol de jogadas, os lances pelos lados do campo, o embate tenderá a ser centralizado e de fácil defesa para o time gaúcho.

Outra parte do campo que merece atenção é a cabeça de área. Nela – e a menos que o técnico Gilberto Pereira mude – temos Wilson e Douglas. Dois bons jogadores quando se trata de marcação. Melhores ainda quando se pergunta sobre disposição. Mas o que preocupa é a saída de bola. Em jogos fora de casa, os volantes têm que marcar mais, e por isso, releva-se as suas qualidades de criação. Já dentro de casa, precisando buscar um resultado favorável contra um adversário defensivo, o quadro muda de figura. De todos os volantes deste ano, o que mais me agradou com a bola nos pés foi Sílvio, que veio emprestado do Iraty e cumpriu suspensão na última rodada. Talvez fosse interessante a sua escalação ao lado de Wilson, que tem mais porte e tranquilidade na hora do passe que Douglas. Justiça seja feita, o jovem Douglas – revelado pela base do Londrina – tem um condicionamento físico excepcional, que chega a dar inveja em alguns fundistas. O problema está na sua afobação pós roubada de bola. Muitas vezes o garoto se empolga e não cumpre o básico, deixando o adversário voltar ao ataque aproveitando a desatenção na hora do passe.

Se servir de alento ao torcedor londrinense, o inteligente e falecido ex-técnico da seleção brasileira, João Saldanha, defendia a tese de que de nada valiam os números de esquemas: 4-4-2, 4-3-3, 4-2-4 e etc. Para ele, isso tudo era bobagem e coisa ultrapassada. O que importava mesmo era a forma como o time jogava, com os jogadores procurando inteligentemente as brechas do campo onde havia possibilidades maiores de ataque e, do outro lado, reconhecendo e reforçando os setores frágeis da defesa.
 

Eles não merecem!

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Foto: Ico Lamberti

O Londrina conquistou, com muita garra e luta, uma vaga na 2ª fase da Série D do Campeonato Brasileiro. Entretanto, os personagens principais desta trama não têm, nas situações momentâneas de seus papéis, retratos fieis de suas performances.

A começar pelos manda-chuvas do LEC. Representados por Peter Silva, este grupo, oficialmente chamado de diretoria, não observa nos resultados obtidos dentro de campo o reflexo de seu trabalho nos bastidores. Se assim o fosse, o Londrina estaria hoje amargando uma eliminação vergonhosa, quiçá com zero ponto e um saldo de gols embaraçoso. Todavia, os mandatários do clube desfrutam de uma condição muito mais confortável que a oferecida, até aqui, aos seus comandados.

Outros que também não merecem a situação que vivem são os atletas da agremiação alvi-celeste. Após o jubiloso fecho da 1ª fase, os números não mentem: realizaram uma jornada digna e surpreendente. Mas se pode questionar o que há de surpreendente em uma campanha mediana que conquistou 50% dos pontos em disputa, com três vitórias em seis jogos. A resposta, meus camaradas, está no parágrafo acima. É totalmente impensável, no futebol atual, que haja tamanha entrega e tamanho senso de profissionalismo em um grupo de jogadores que não vê o seu salário sendo pago integralmente há dois meses. De fora do campo só promessas e procrastinações, e de dentro, a resposta é empenho e vontade de vencer. Eles não merecem!

Composta por membros que variam de meros espectadores até fervorosos entusiastas, a torcida azul e branca ainda não demonstrou porque está recebendo, dos atletas que a representa, tanta dedicação. Não me refiro à minoria que participa ativamente do clube e que acompanha a delegação londrinense onde ela for. Trato, sim, da cidade como um todo. É óbvio que o público presente nos três jogos do Londrina em casa deixou a desejar. Não fosse a providencial ajuda do prefeito Barbosa Neto, que vendeu a empresários dois mil ingressos por partida para propiciar um alento às rendas, o Tubarão teria dificuldades ainda maiores de se manter, tanto financeiramente quanto simbolicamente - na média de público da CBF. Agora é a hora do torcedor londrinense se redimir perante o seu time. Para emparelhar com os gestos dignos dos jogadores, a contrapartida terá de ser uma presença de público relevante no próximo domingo. No mínimo cinco mil torcedores.

Porém, de todos os citados, a figura de maior proeminência é a de Gilberto Pereira. Um técnico marginalizado, esquecido, e relegado pela sua própria diretoria. Apesar disto, este homem foi astuto o suficiente para fazer o mesmo com os seus chefes. Deixou para trás os paroleiros devedores para unir os seus jogadores, criando, muito acertadamente, uma impressionante gana por algo melhor em suas carreiras. A classificação do clube, conseguida a duras penas, se deve muito ao profissionalismo deste treinador.

 

Perfil - Auber


Auber Auber Silva Pereira Filho, 19 anos, é estudante de jornalismo da Universidade Estadual de Londrina. Colaborou, entre 2007 e 2008, com o programa "A voz do Tubarão" que ia ao ar na Rádio Alternativa FM, de Ibiporã. Agora está presente no Lecmania, fazendo uma das coisas que mais gosta: prosear sobre futebol. Torce para o Londrina e o segue com mais afinco desde 2004. Não sabe bater três embaixadinhas decentes.
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